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16 de mai. de 2012

O diamante Beau Sancy

 

foto Sotheby`s

 


O diamante conhecido como Beau (belo) Sancy é um dos mais importantes diamantes históricos existentes. Lapidado em forma de pera e com 34,98 quilates, esteve nas joias das famílias reais da França, Inglaterra, Prússia e Holanda, testemunhando 400 anos da história européia.


O diamante apareceu em registros pela primeira vez em 1595, quando o Senhor de Sancy, Nicolas Harlay de Sancy, futuro Ministro das Finanças do rei francês Henrique IV (1553-1610), o colocou à venda. Comprado em Constantinopla em meados do século XVI, o diamante muito provavelmente é originário das minas localizadas perto da cidade de Golconda, Índia e que foram fontes de outros diamantes espetaculares, como o Hope, o Regente e o Koh-i-Noor. 

Em 1604 ele foi comprado por Henrique IV como um presente a sua segunda esposa e rainha, Maria de Médicis (1575-1642)  por 25.000 escudos de ouro (apesar de ter sido estimado pelo dobro deste valor) para ser colocado no alto da coroa usada quando da coroação da rainha em 1610.


Após o assassinato de Henrique IV por Ravaillac, Maria de Médicis é exilada pelo próprio filho, o novo rei francês Luis XIII que tinha como primeiro-ministro o Cardeal Richelieu, inimigo da rainha, no  Château de Blois. Depois de várias reviravoltas políticas, pois Maria De Médicis queria a todo custo voltar a ter poder político na França, em julho de 1631 a rainha-mãe foge para Bruxelas. Desgastada  por causa das tramas empreendidas para sua volta triunfal à França, o que nunca ocorreu, em 1638 Maria de Médicis vai para a Inglaterra na esperança de ser ajudada pelo genro Carlos I (1600-1649), casado com sua filha Henriqueta Maria. Maria de Médicis foi recebida na corte inglesa com uma pensão substancial. Como era católica, logo despertou a ira dos protestantes ingleses, que em 1641 exigiram a sua partida. A rainha-mãe francesa viaja então primeiro para os Países Baixos onde, cheia de dívidas, vende o Beau Sancy para o príncipe Frederico Henrique de Orange-Nassau (1584-1647) por 80.000 florins e depois parte então para seu último destino, a cidade de Colônia, Alemanha, onde fica hospedada na casa do pintor Pedro Paulo Rubens até sua morte.

Em 1641, o diamante é usado para reforçar as alianças das províncias unidas holandesas com os grandes poderes políticos europeus: o casamento do filho do príncipe Frederico Henrique, Guilherme ( mais tarde Guilherme II de Orange-Nassau (1631-1660) com a princesa Maria Stuart, filha dos reis da Inglaterra e neta de Maria de Médicis. Após a morte do marido, Maria Stuart volta para a Inglaterra com suas joias, incluindo o Belo Sancy.

Em 1677, pela ocasião do casamento de Guilherme III de Orange-Nassau (1650-1702) com  a princesa Maria II Stuart, filha do rei inglês Jaime II, o diamante Belo Sancy entra novamente para o tesouro da Casa de Orange-Nassau. Em 1689, Guilherme III e Maria II Stuart ascendem ao trono inglês e o diamante passa a fazer parte da joias da Coroa inglesa. Quando os reis morrem sem deixar herdeiros, o diamante volta para a Casa de Orange-Nassau.

Em 1702, em consequência de uma disputa entre os herdeiros da Casa de Orange, o recém-coroado Frederico II de Hohenzollern (1712-1786), primeiro rei da Prússia, desiste de todas as joias do seu legado para obter o Belo Sancy. O valor simbólico e o prestígio da já célebre gema é tamanho que o rei o torna o principal ornamento na coroa real da Prússia e o associa com a primeira ordem prussiana, a Ordem da Águia Negra.

Maior gema da Coleção dos Hohenzollern , o Beau Sancy passou de geração em geração dentro da mesma família até maio de 2012 e foi usado pelas mulheres da casa real em importantes ocasiões.

Quando o último imperador alemão e também rei da Prússia fugiu em 1918 para o exílio nos Países Baixos, as joias da coroa e o Beau Sancy permaneceram em Berlim. No final da Segunda Guerra Mundial a coleção foi transferida para um cofre em Bückeburg, onde foi encontrada pelas tropas inglesas e devolvida aos Hohenzollern . Depois da guerra, passou pelos herdeiros da finada casa real da Prússia até ser herdado pelo príncipe George Frederico Hohenzollern , que decidiu o entregar a Sotheby`s para leilão.

Em 15 de maio de 2012, o Beau Sancy foi  vendido pela famosa casa de leilão em Genebra, Suíça, por quase dez milhões de dólares ( exatos 9.699.618,00 dólares), valor alcançado bem acima dos valores estimados de venda (entre 2-4 milhões de dólares) a um comprador anônimo, cujo lance foi dado pelo telefone.





29 de jul. de 2008

A Coleção al-Shabah

Foto Museu Nacional do Kuwait

A grandeza imperial, o refinamento e a opulência com os quais os Mughal, governantes da Índia entre 1526 e 1858, eram reconhecidos encontraram na joalheria sua expressão máxima.
A reputação da Índia como centro de produção joalheira, data de tempos antigos. Durante a Idade Média, as minas indianas em Golconda eram grandes produtoras de diamantes de alta qualidade. Através de rotas comerciais, rubis de Burma (atual Mianmar), espinélios do Badaquistão (região norte do Afeganistão), esmeraldas da Colômbia e safiras do Sri Lanka eram lapidadas e passavam a fazer parte de jóias maravilhosamente elaboradas.
Os ourives indianos dominavam a técnica de cravação de gemas conhecida como kundan (ouro puro em híndi), onde finíssimas folhas de ouro (24 quilates) eram colocadas juntas através de pressão e em temperatura ambiente, em volta das gemas, dispensando o uso de ferramentas de cravação. Esta técnica permitia uma incrível liberdade para os artesãos criarem seus designs e é ainda utilizada hoje em dia.
Na arte da lapidação, os artesãos indianos também obtinham distinção pela técnica de esculpir gemas mais duras, como o jade, o que agradava aos governantes Mughal, descendentes do conquistador mongol Timur (também conhecido por Tamerlane), que dominou uma vasta região da Índia no século XIV DC.
A maior e mais completa coleção de jóias Mughal está no Museu Nacional do Kuwait, e é chamada de Coleção al-Shabah graças ao Sheik Nasser e a sua esposa Hussah, membros da família real do Kuwait.

Na sua totalidade, a coleção al-Shabah compreende mais de 25.000 peças de arte islâmica datadas entre os séculos VII dC e o século XIX, sendo as mais de 300 jóias e objetos Mughal apenas uma parte desta vasta coleção. Criteriosa e apaixonadamente colecionadas ao longo de mais de três décadas pelo Sheik Nasser Sabah al-Ahmad al-Shabah, a fantástica coleção sobreviveu às vicissitudes da Guerra do Golfo de 1990, durante a qual uma grande parte do acervo do Museu Nacional do Kuwait, incluindo a coleção al-Shabah, foi levada em grandes caminhões para o Museu do Iraque em Bagdá, por um grupo de arqueólogos iraquianos obedecendo à ordens do governante do Iraque de então, Saddan Hussein. Grande parte das peças retiradas do Kuwait foi repatriada, através da ONU, mas alguns itens de alto valor e raridade continuam desaparecidos, como três raríssimas esmeraldas indianas esculpidas.
Algumas peças Mughal da coleção al-Shabah são dignas de nota: um espinélio entalhado com os títulos de vários proprietários pertencentes a dinastias islâmicas; esplêndidos ornamentos de uso pessoal, como o pendente em camafeu que retrata o imperador
Shah Jahan ( idealizador e construtor do Taj-Mahal); uma fabulosa adaga incrustada de gemas; várias peças delicadamente esmaltadas; caixas feitas de jade e cristal-de-rocha, decoradas com gemas diversas; grandes rubis e esmeraldas entalhados com designs florais, além de outras gemas como safiras, espinélios e diamantes, belamente entalhados com designs diversos; delicadas esculturas em jade e magníficas jóias decoradas em esmaltes com a técnica inlay.

Foto Museu Nacional do Kuwait