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29 de jul. de 2008

A Coleção al-Shabah

Foto Museu Nacional do Kuwait

A grandeza imperial, o refinamento e a opulência com os quais os Mughal, governantes da Índia entre 1526 e 1858, eram reconhecidos encontraram na joalheria sua expressão máxima.
A reputação da Índia como centro de produção joalheira, data de tempos antigos. Durante a Idade Média, as minas indianas em Golconda eram grandes produtoras de diamantes de alta qualidade. Através de rotas comerciais, rubis de Burma (atual Mianmar), espinélios do Badaquistão (região norte do Afeganistão), esmeraldas da Colômbia e safiras do Sri Lanka eram lapidadas e passavam a fazer parte de jóias maravilhosamente elaboradas.
Os ourives indianos dominavam a técnica de cravação de gemas conhecida como kundan (ouro puro em híndi), onde finíssimas folhas de ouro (24 quilates) eram colocadas juntas através de pressão e em temperatura ambiente, em volta das gemas, dispensando o uso de ferramentas de cravação. Esta técnica permitia uma incrível liberdade para os artesãos criarem seus designs e é ainda utilizada hoje em dia.
Na arte da lapidação, os artesãos indianos também obtinham distinção pela técnica de esculpir gemas mais duras, como o jade, o que agradava aos governantes Mughal, descendentes do conquistador mongol Timur (também conhecido por Tamerlane), que dominou uma vasta região da Índia no século XIV DC.
A maior e mais completa coleção de jóias Mughal está no Museu Nacional do Kuwait, e é chamada de Coleção al-Shabah graças ao Sheik Nasser e a sua esposa Hussah, membros da família real do Kuwait.

Na sua totalidade, a coleção al-Shabah compreende mais de 25.000 peças de arte islâmica datadas entre os séculos VII dC e o século XIX, sendo as mais de 300 jóias e objetos Mughal apenas uma parte desta vasta coleção. Criteriosa e apaixonadamente colecionadas ao longo de mais de três décadas pelo Sheik Nasser Sabah al-Ahmad al-Shabah, a fantástica coleção sobreviveu às vicissitudes da Guerra do Golfo de 1990, durante a qual uma grande parte do acervo do Museu Nacional do Kuwait, incluindo a coleção al-Shabah, foi levada em grandes caminhões para o Museu do Iraque em Bagdá, por um grupo de arqueólogos iraquianos obedecendo à ordens do governante do Iraque de então, Saddan Hussein. Grande parte das peças retiradas do Kuwait foi repatriada, através da ONU, mas alguns itens de alto valor e raridade continuam desaparecidos, como três raríssimas esmeraldas indianas esculpidas.
Algumas peças Mughal da coleção al-Shabah são dignas de nota: um espinélio entalhado com os títulos de vários proprietários pertencentes a dinastias islâmicas; esplêndidos ornamentos de uso pessoal, como o pendente em camafeu que retrata o imperador
Shah Jahan ( idealizador e construtor do Taj-Mahal); uma fabulosa adaga incrustada de gemas; várias peças delicadamente esmaltadas; caixas feitas de jade e cristal-de-rocha, decoradas com gemas diversas; grandes rubis e esmeraldas entalhados com designs florais, além de outras gemas como safiras, espinélios e diamantes, belamente entalhados com designs diversos; delicadas esculturas em jade e magníficas jóias decoradas em esmaltes com a técnica inlay.

Foto Museu Nacional do Kuwait

7 de jul. de 2008

Um Pouco Sobre As Jóias de Catarina de Medici


Rainha francesa de origem italiana, Catarina nasceu em Florença no dia 13 de abril de 1519, filha de Lorenzo de Médici, duque de Urbino e da francesa Madeleine de La Tour D’Auvergne. Devido a um acordo entre o papa Clemente VII e o rei da França Francisco I, casou-se aos 14 anos com Henrique, segundo filho do rei francês. Durante os primeiros anos do casamento foi desprezada, por ser filha de uma “família de mercadores italianos” e por não conseguir conceber, mas teve ao todo 10 filhos com o marido, que assumiu o trono da França como Henrique II.

Travou durante toda a sua vida de casada uma luta surda com a amante do marido, Diana de Poitiers. Com a morte de Henrique II e de seu filho mais velho, Francisco II, Catarina finalmente conseguiu que Diana devolvesse as jóias da Coroa, com as quais fora presenteada pelo amante (que para isso a havia nomeado “Guardiã das Jóias da Coroa da França”), a retirar-se da Corte e a trocar o belíssimo castelo de Chenonceau pelo muito menos belo castelo de Chaumont-sur-Loire. Com a ascensão ao trono francês do filho Carlos XI, ainda menor de idade, em 1560, Catarina tornou-se regente da França.

Tentou conter os conflitos religiosos que dividiam a França, procurando manter-se imparcial em relação aos protestantes (huguenotes), liderados pelo almirante Gaspar de Coligny, e aos católicos, liderados pelos poderosos Guise. A situação de guerra civil na França culminou com a violenta Noite de São Bartolomeu em 24 de agosto de 1572, quando Coligny foi executado e as tropas dos Guise mataram 300 mil huguenotes.

Durante o período em que permaneceu no poder (até 1574), e mesmo ainda antes, foi uma apaixonada patronesse das Artes e entre suas principais realizações estão a ampliação do palácio do Louvre, residência então dos reis franceses, a construção do palácio das Tulherias e o aumento do acervo da biblioteca de Paris. Catarina morreu no castelo de Blois em 5 de janeiro de 1589.

As jóias, o vestido e os adereços que Catarina usa nesta pintura (de autor desconhecido) são muito representativos do Renascimento francês: o veludo negro do vestido da rainha é inteiramente recoberto com uma treliça feita de pérolas bordadas, contendo safiras e diamantes emoldurados em ouro em cada intersecção e sendo os espaços preenchidos por um desenho feito em fios de ouro. A parte superior do vestido, espartilhada, contém um decote em meia lua recoberto, em ambos os lados, por uma fina gaze rebordada de pérolas e safiras. A gola alta do vestido é também em gaze enfeitada por bordados nas pontas e deixa à mostra somente a parte frontal do pescoço. Um grande broche em ouro, diamantes, safiras e pérolas adorna a parte superior do vestido, e dele pende um fio de pérolas, diamantes e safiras. No pescoço a rainha usa um colar com as mesmas gemas que decoram suas roupas: pérolas, diamantes e safiras. Brincos de pérolas e diamantes adornam suas orelhas.

As mangas do vestido, da metade do braço até a metade do antebraço, estão cobertas por arminho. As mangas que cobrem os braços até as mãos dão a impressão de que fazem parte da roupa usada por baixo do vestido negro, mas são falsas, já que na verdade estão costuradas ao arminho. De mesma cor e tecido, seda rosa - clara, estão decoradas seguindo o mesmo padrão de design do vestido, mas são também rebordadas com fios de prata que formam um segundo padrão de design e possuem botões de ouro e diamantes para ajustar o cetim branco que sobressai das mangas. A saia da roupa inferior segue o mesmo padrão de design das mangas falsas.

A cintura da rainha francesa é adornada por um longo cinto feito de fios de pérolas, safiras e ouro e em cuja ponta pende uma cruz feita em ouro e decorada com diamantes, safiras e pérolas. O adorno de cabeça, conhecido como “capuz francês”, é decorado com as mesmas gemas que adornam as vestes da rainha e bordado com fios de ouro e prata. Na mão direita, Catarina segura um grande leque feito de penas de avestruz, ouro e decorado com as mesmas gemas que adornam suas vestes.

9 de mai. de 2008

Van Cleef & Arpels e a Técnica da Cravação Misteriosa


Foto e Jóia Van Cleef & Arpels


Em fins da década de 1920, os joalheiros parisienses começaram a mudar seus conceitos a respeito do design na joalheria. Esta mudança começou a partir da Exposição de Artes Decorativas e Industriais acontecida na Paris de 1925. O estilo Arte Decó que emergiu das transformações sociais, industriais e comerciais ocorridas nas duas primeiras décadas do século XX era um estilo de design angular e arquitetural, que podia ser retilíneo ou curvilíneo, sempre utilizando formas geométricas como linhas retas, círculos, quadrados, retângulos e triângulos.

Uma técnica essencial para o design de uma jóia tornou-se um ícone do período e permanece popular até nossos dias: a chamada cravação invisível. Esta técnica de cravar gemas se originou do desejo dos joalheiros de que as gemas tivessem o máximo de visibilidade nas jóias, sem a interferência do metal precioso. Três joalheiros conseguiram alcançar a perfeição neste tipo de cravação, mas só Van Cleef & Arpels tornou-se sinônimo da mesma.

Em 1929, o joalheiro parisiense Jacques-Albert Algier desenvolveu e patenteou um método de segurar a gema na jóia sem garras de metal precioso ou qualquer outro tipo de recurso que mostrasse o metal em meio às gemas. Algier conseguiu isso esculpindo sulcos em lados opostos de cada gema e usando diminutos trilhos feitos no metal precioso para a colocação da gema na jóia. Assim, cada gema era cravada lado a lado com outra, efetivamente mascarando o metal, conseguindo um efeito visual delicado parecido com uma fita.

Próximo ao método criado por Algier estava a Maison Cartier em 1933. Mas em vez de incorporar a nova técnica de cravação ao design da Maison, a Cartier, provavelmente por já estar fazendo enorme sucesso com suas jóias multicoloridas chamadas de “tutti-frutti” ou as de estilo Art Decó, seus famosos “relógios misteriosos” e com sua linha de objetos de arte com inspiração no antigo Egito, não deu grande importância a nova técnica.

Mas ao contrário da Cartier, sua concorrente e competidora na parisiense Place Vendôme Van Cleef & Arpels, não relutou em abraçar a nova técnica e usar todos os recursos disponíveis para chegar à perfeição da mesma.

Foram os irmãos Charles e Julien Arpels os fundadores da Maison em 1906, junto com seu primo e cunhado Alfred Van Cleef. O outro irmão Arpels, Louis, juntou-se aos demais seis anos depois. Julien era especialista em gemas, Alfred um excelente lapidário e Louis e Charles eram competentes comerciantes que usavam grandes doses de charme para seduzir clientes da alta-sociedade européia. Esta combinação de talentos foi a chave para o sucesso da Maison que, no entanto, não chegou tão rápido.

Em meados da década de 1920, a Van Cleef & Arpels (VCA) ainda estava tentando se estabelecer com estrela no mercado da joalheria de luxo parisiense. O reconhecimento, e com ele o sucesso e as encomendas de clientes da alta-sociedade européia e norte-americana veio com a exposição de 1925, onde a Maison arrematou o “Grand Prix” com um bracelete cujo design era um ramalhete de rosas feitas de rubis e diamantes, com a folhagem em esmeraldas. Em dezembro de 1933, nove meses depois da Cartier, a Maison registrou sua técnica de cravação invisível, que recebeu o nome de “serti mysterieux”, ou cravação misteriosa.

Uma das dificuldades da técnica patenteada pela VCA era a necessidade imperiosa de escavar sulcos precisamente iguais nos lados opostos de cada gema. Para conseguir, usavam lâminas serrilhadas feitas de seda endurecida, recobertas com pó de diamantes. Muitas gemas foram quebradas durante o processo da escavação dos sulcos. Claramente, isso aumentava as despesas, e conseqüentemente o valor final da jóia, já que cada gema quebrada, como um rubi da Birmânia (atual Mianmar), por exemplo, tinha que ser reposta por outra exatamente igual. Em algumas das peças mais importantes da Maison foram utilizadas centenas de gemas, e meses de trabalho manual extenuante. As primeiras jóias com a técnica da cravação invisível usaram o que foi chamado de “trilhos em T”: a gema, com os sulcos esculpidos, era pressionada para encaixar nos trilhos feitos no metal precioso. Outra maneira, também bastante trabalhosa, era colocar as gemas em uma espécie de grade de ouro e então as colocar uma a uma no lugar por meio de fios lisos e chatos de ouro que eram passados pelos sulcos nas mesmas. É claro que cada gema tinha não somente que ter seus sulcos escavados nos lugares necessários, mas também ser facetada perfeitamente de forma a ocupar sua posição ao lado de outra gema, concorrendo para a beleza do design escolhido. Era imperativo que o lapidário trabalhasse lado a lado com o ourives.

As jóias com a técnica “serti mysterieux” foram um imenso sucesso, e por duas décadas a Van Cleef & Arpels produziu e vendeu um grande número de jóias decoradas com gemas em cravação invisível. No entanto, com as mudanças de estilo da década de 50 do século passado, a cravação invisível perdeu muito do seu apelo, retornando somente em meados dos anos 80.

Desde então, a cravação invisível tem sido uma grande responsável pela composição de maravilhosos designs na joalheria, graças a novas técnicas de fabricação de jóias que utilizam materiais como titânio e cerâmica, além de ferramentas a laser. A maioria das jóias nas quais foi e é utilizada a técnica da cravação invisível contém, por exemplo, diamantes cujo tamanho varia de 1,4 mm a 3,5 mm, o que significa aproximadamente gemas entre 0,01 e 0,16 quilates. No mercado joalheiro mundial, diamantes entre 1,4 mm e 1,8 mm são considerados gemas pequenas, os que variam entre 1,9 mm e 2,5 mm são diamantes médios e, entre 2,7 mm e 3,5 mm, diamantes grandes.

Em fevereiro de 2006, a Van Cleef & Arpels lançou no Mercado, junto com a Montblanc, a caneta mais cara e luxuosa do mundo, chamada apropriadamente de “Mystery Marterpiece”, como parte das comemorações pelo centenário de ambas as marcas.

Cada caneta tem seu corpo em ouro branco, adornado por safiras, esmeraldas ou rubis (foram feitos somente três exemplares com cada gema), e com 840 diamantes acentuando o luxo da peça. Todas as gemas foram cravadas com uma nova variação do método da cravação misteriosa. Esta variação esconde completamente o metal precioso usado para segurar a gema na peça, e o resultado é a ilusão de que as gemas “flutuam” na superfície da caneta. A tampa possui a estrela, marca registrada da Montblanc, cravejada de diamantes redondos enquanto que uma borboleta em ouro branco com diamantes repousa sobre o clip. Somente nove exemplares foram produzidos. Lançada através de uma espetacular campanha de marketing, cada caneta foi colocada à venda por 730.000 dólares, nas principais lojas Van Cleef & Arpels e Montblanc.

Foto e Caneta : Montblanc e Van Cleef & Arpels

13 de fev. de 2008

As Jóias de La Paiva

Foto Reuters


Nascida em um gueto judeu moscovita da Rússia de 1819, Esther Lachman, dita Thérèse Lachman, ascendeu socialmente na França de Napoleão III como cortesã. Época chamada de Período Dourado pelos que a vivenciaram, a Europa sem guerras a partir de 1815 viu chegar uma era de prosperidade, tanto na economia e na ciência quanto nas diversas formas de artes. Tal prosperidade não era mais somente um privilégio da classe nobre, mas se estendeu também às novas fortunas surgidas com a Revolução Industrial e que usavam as extravagâncias do luxo como forma de demonstrar poder.

Contemporânea de outra famosa cortesã, Alphonsine Duplessis, imortalizada por Dumas como a Dama das Camélias, era tida como de uma beleza exótica (cabelos negros emoldurando um rosto de traços mongóis), esperta, incrivelmente ambiciosa e sem escrúpulos e foi em Paris que Thérèse desenvolveu sua paixão pelo luxo e por jóias. Casada aos 17 anos com um peleteiro de nome Antoine Villoing, com ele teve um filho, mas logo se cansou da vida simples de mulher de um pequeno comerciante de peles e os abandonou para viver e trabalhar em um bordel de luxo no Marais que tinha como clientes, dentre outros artistas, ricos comerciantes e nobres, o compositor Richard Wagner.

Em três anos, Thérèse já possuía vários vestidos luxuosos, algumas jóias e peles, dadas de presente pelo seu amante mais apaixonado, o inglês Lord Stanley. Com a morte do primeiro marido, passou a procurar um segundo e o encontrou na pessoa do marquês português Albino Francisco de Paiva Araújo, que não imaginava exatamente o movimentado passado amoroso da agora marquesa de Paiva, ou La Paiva, como Thérèse passou a ser conhecida na sociedade. Frustrado e com vergonha ao saber de detalhes do passado da esposa suicidou-se com um tiro em 1872.

Era então hora de partir para o terceiro marido e La Paiva casou-se então com o conde prussiano Guido Henkel Von Donnersmarck, imensamente rico, de família da alta nobreza e amigo do imperador alemão, além de 11 anos mais moço. Como condessa, apesar da sociedade parisiense jamais ter cruzado os umbrais dos belíssimos portões da mansão do conde na Avenida Champs Elysée, Thérèse finalmente atingiu o patamar máximo da sua ambição e passou a desfrutar de todos os luxos ainda não desfrutados.

Tornou-se uma das mais assíduas clientes da Maison Boucheron e entre 1878 e 1883 fez exatamente 30 visitas, nas quais adquiria gemas que depois entregava a própria Maison para que fosse feitas jóias de acordo com seu gosto, ou então comprava várias peças prontas de uma só vez. Uma de suas mais memoráveis aquisições aconteceu em 1882, quando comprou por 157.000 francos (em valores da época) pérolas, esmeraldas, rubis e safiras, para no dia seguinte voltar à Boucheron e encomendar a montagem de várias jóias, dentre as quais um bracelete decorado com três grandes esmeraldas, uma rivière contendo 12 diamantes e 13 rubis e outra contendo 15 diamantes lapidados em brilhante e 15 esmeraldas em lapidação esmeralda, esta última levada à leilão na Christie`s de Genebra, Suíça, em 15 de novembro de 2007, e arrematada por 1.900.000,00 Euros.

La Paiva morreu em 1884, aos 64 anos, no castelo de seu marido, em Neudeck, Alemanha. Em 1887, o conde casa-se novamente, desta vez com uma jovem aristocrata russa, Katharina Slepzow, a quem oferta a maior parte das jóias pertencentes à primeira esposa. Surpreendente enquanto viva, Thérèse não deixou de surpreender também depois de morta: seu corpo, embalsamado numa solução alcoólica dentro de um enorme jarro de vidro, foi descoberto pela segunda esposa do Conde Von Donnersmarck num quarto que permanecia há anos fechado à chave, dentro do castelo. Conta-se que o conde ficava trancado por horas dentro do quarto, chorando a morte da primeira esposa.