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25 de jul. de 2024

O Tesouro Viking de Galloway

O Tesouro de Galloway nos transporta para o auge da era Viking, por volta do ano 900. Este tesouro, agora preservado no National Museums Scotland https://www.nms.ac.uk/, é uma coleção sem precedentes de mais de 100 objetos, incluindo uma quantidade impressionante de prata e a maior variedade de objetos de ouro da era Viking encontrados na Grã-Bretanha e Irlanda. 

Entre as peças encontradas destacam-se por sua singularidade e beleza a cruz peitoral em prata e ouro, exemplo de artefato que chama atenção, não apenas pela sua execução requintada, mas também pelo seu simbolismo religioso. Outro item notável é o pin de ouro em forma de pássaro, uma peça de joalheria que reflete a habilidade e a criatividade dos artesãos da época. A jarra de cristal de rocha montada em ouro é outro artefato que deslumbra, tanto pelo design quanto uso luxuoso de materiais preciosos e pela proveniência misteriosa, que sugere conexões comerciais distantes. 

Pin em ouro com técnica decorativa em niello 
National Museums Scotland


Além das peças mencionadas, os broches anglo-saxônicos são evidências da fusão cultural que caracterizava a era Viking, representando condignamente a ourivesaria dos artesãos vikings e refletindo a mestria e a complexidade da confecção de joias e outros artefatos da época. 

Broche anglo-saxão em prata e niello 
National Museums Scotland

Descobertos em 2014 junto às outras peças que compõem o Tesouro de Galloway, esses broches são notáveis por sua raridade e pelo fato de serem do tipo disco anglo-saxão, nunca antes encontrados na Escócia. A restauração recente de um desses broches revelou detalhes fascinantes, como uma decoração com videira, uma cruz central e quatro cabeças de animais com bocas abertas, cada uma adornada com niello, técnica decorativa composta por uma liga metálica negra de enxofre, cobre, prata e, às vezes, chumbo, que realça o contraste com o brilho da prata. Encontrados em um vaso de prata envolto em tecido de lã, sugerem uma prática cuidadosa de sepultamento e talvez até um ritual simbólico, alinhado com as crenças nórdicas de que tesouros enterrados poderiam ser acessados na vida após a morte ou serviriam para selar juramentos e reivindicar terras. A habilidade artística e técnica representada nesses artefatos é um testemunho da rica tapeçaria cultural da era Viking, onde a fusão de estilos e técnicas reflete as conexões comerciais e culturais que se estendiam por toda a Europa.


Cruz peitoral em prata e ouro contendo técnica decorativa em niello
National Museums Scotland

A preservação dos objetos deste tesouro viking ao longo de quase mil anos é um testemunho da habilidade com que foram confeccionados e da dedicação dos conservadores modernos. A descoberta do tesouro, enterrado em terras que agora pertencem à Igreja da Escócia, apresentou desafios únicos para os especialistas em conservação. Muitos dos objetos, como a cruz peitoral de prata e o pin de ouro em forma de pássaro, foram encontrados em condições notáveis, sugerindo que foram enterrados cuidadosamente. A cruz, por exemplo, ainda tinha sua corrente de prata intacta, enrolada ao redor do objeto como se tivesse sido usada recentemente antes de ser enterrada. Além disso, a preservação de materiais orgânicos, como a corda interna feita de tripas de animais que impedia a corrente de prata de se distorcer, é particularmente notável. O processo de conservação revelou detalhes intricados dos objetos, como a aplicação de niello e folhas de ouro sobre a base de prata da cruz pectoral, destacando a complexidade e a riqueza dos detalhes artísticos da época.

O Tesouro de Galloway representa uma coleção que não só encanta pela estética, mas também pela história que carrega. A descoberta não apenas ilumina o passado da Escócia, mas também oferece novas perspectivas sobre as complexas redes de comércio e cultura da época, com objetos originários de lugares tão distantes quanto a Ásia.

Broche em prata contendo técnica decoratica em niello
National Museums Scotland

Para saber mais sobre o Tesouro de Galoway: https://skfb.ly/orSpU




29 de out. de 2013

Os Castellani: Joalheiros e Amantes de Antiguidades

O italiano Fortunato Pio Castellani (1793- 1865) abriu sua primeira oficina de jóias em 1814, que logo passou a ser reconhecida pelo design inovador ao imitar criativamente as jóias francesas e inglesas contemporâneas. Em 1830, Castellani começa a criar jóias inspiradas nas antigas jóias etruscas descobertas na tumba Galassi e encorajado pelo duque Michelangelo Caetani, amigo e mecenas, Castellani se torna o primeiro joalheiro do século XIX a criar peças modeladas a partir de antigas peças italianas e gregas, porém criando um novo estilo.

A admiração de Castellani pelo sofisticado trabalho de ourivesaria encontrado em jóias da Antiguidade e o seu desejo pessoal de incrementar a arte da joalheria italiana, fizeram-no perseguir os mistérios da arte da granulação, então considerada perdida, mas que era conhecida e dominada pelos etruscos (séc. IX ao séc. IV AC). O estudo e a pesquisa da antiga arte da granulação absorveu a família Castellani por décadas, e é uma das maiores contribuições feitas pelos Castellani à história da joalheria. 

 
Em meados de 1850, os dois filhos de Castellani, Alessandro e Augusto, começam a assumir gradualmente à frente dos negócios e utilizam um excelente trabalho de marketing para tornar famosa a “joalheria arqueológica” iniciada pelo pai, não somente entre as aristocracias italiana e internacional, mas também entre turistas refinados e artistas que visitavam Roma. 

Por volta de 1860, Alessandro Castellani abre lojas em Paris e Londres e inicia sua própria firma com sede em Nápoles. E pela primeira vez, a Castellani expôs suas jóias em exposições internacionais acontecidas em Florença, Paris e Londres, com um sucesso tão estrondoso que logo as jóias Castellani passaram a ser imitadas por toda a Europa. Em 1876, as jóias antigas colecionadas pelos Castellani e suas reproduções foram vistas pelos americanos na Exposição do Centenário em Filadélfia e no ano seguinte o Museu Metropolitano de Nova York apresentou as jóias Castellani.

As jóias Castellani distinguem-se pelo uso de desenhos geométricos não muito elaborados realçados por padrões decorativos como granulações, filigranas e minúsculas flores aplicadas com precisão. Mosaicos em miniatura aplicados nas peças lembram as primeiras jóias cristãs de Roma, Ravena e Constantinopla. Gemas, camafeus e insetos como o escaravelho, são os pontos centrais de algumas jóias, assim como em outras o que atrai o olhar é o maravilhoso trabalho de esmaltação, demonstrado em diferentes técnicas e numa rica variedade de cores.

Uma das razões mais importantes para entendermos a motivação dos Castellani em reviver os estilos e técnicas de ourivesaria dos antigos etruscos e romanos foi o nacionalismo italiano então nascente, que logo levaria a uma Itália unificada. Imbuídos de sentimentos patrióticos, os Castellani também resolveram estudar todos os períodos da história da joalheria italiana e tiveram muito sucesso ao reviver os períodos medieval e renascentista italianos.

Ao mesmo tempo em que eram grandes joalheiros, os Castellani também eram excelentes comerciantes e restauradores de antiguidades e patrocinavam escavações arqueológicas. Num esforço para preservar as melhores peças para Roma, a família era possuidora de grandes coleções de delicados vasos, bronzes e jóias encontradas em sítios arqueológicos pela Itália. A magnífica loja de Augusto Castellani, próxima a Fontana di Trevi, era praticamente um museu, tantas eram as maravilhosas peças ali expostas. Além de gerenciar seus bem-sucedidos negócios, principalmente Fortunato e seu filho Augusto ajudavam a manter vários edifícios públicos antigos e também museus romanos, como uma demonstração de amor a sua querida Roma. O filho mais velho Alessandro, preso por suas atividades políticas republicanas e exilado, mais tarde ajudou enormemente a expansão e o reconhecimento das jóias Castellani no exterior.

14 de ago. de 2013

O Mistério do Tesouro de Sutton Hoo





Enterrado perto do estuário do Rio Deben, no local conhecido como Sutton Hoo, em Suffolk, Inglaterra, o barco que pertenceu a um rei saxão foi descoberto em 1939, poucos meses antes de ter início a II Guerra Mundial. Estudos indicam que possa ter pertencido ao rei pagão Raedwald, que viveu nesta região por volta do século VII e morreu em 625 dC. Um dos chamados Quatro Senhores da Bretanha, e conhecido como rei da Anglia do Leste, reinou sobre reinos menores e reverteu toda a região sob seu domínio ao paganismo, admitindo nos mesmos altares os deuses pagão e o Deus cristão.

O interior do barco foi encontrado totalmente recoberto por tapetes e contendo todos os objetos pertencentes a um rei guerreiro: elmo, cota de malhas, espada, escudo, martelo usado em batalhas, fivelas para manto e botões para vestimenta, cetro, uma lança que provavelmente deve ter servido como porta-estandarte, moedas e diversos objetos de uso diário, como vasilhas em prata e em bronze, pratos de madeira, chifres que serviam como copos para servir bebidas, uma enorme e intrincada corrente e pedaços de tecidos feitos em lã nas cores índigo, vermelho e amarelo.

Elmo
British Museum

Feito em ferro, o elmo é decorado com finas folhas de bronze e detalhes em prata, onde se encontram gravadas cenas com animais e também da mitologia escandinava. O escudo e a espada também são impressionantes. Inicialmente recoberto com madeira e lã grossa, o escudo agora somente mostra a sua estrutura em ferro e dois animais que o decoram: um dragão e um pássaro, ambos em bronze e guarnecidos com granadas. O punho da espada é maravilhosamente decorado em ouro e granadas com a técnica do cloisonné e o corpo da espada consiste em várias folhas de ferro trabalhadas em paralelo, formando uma espada extremamente pesada e mortal.

Fivela para manto
British Museum


Mas é nos objetos menores, verdadeiras joias, como as fivelas para o manto e para o cinto, e a bainha da espada que podemos constatar a maravilha e a excelência dos ourives anglo-saxões daquela época. De confecção extremamente intrincada e delicada, sugerindo um virtuosismo do ourives, a fivela do cinto, em ouro e bronze, possui três fechos de segurança e as fivelas para o manto, feitas em ouro e decoradas com vidro em millefiori , cloisonné e granadas, são moldadas convexamente para se adequarem aos ombros e possuem um padrão decorativo zoomórfico, de design altamente sofisticado.
Não foram encontrados vestígios de um corpo no solo ácido da região onde o barco foi enterrado, o que sugere que o mesmo era um monumento em honra a um rei, que por sua vez foi enterrado em outro lugar. Evidências de fosfatos residuais provam, no entanto, que um corpo esteve um dia enterrado dentro do barco...


Fivela para cinto
British Museum

12 de set. de 2012

A Vida e as Joias de La Paiva




Nascida em um gueto judeu moscovita da Rússia de 1819, Esther Lachman, dita Thérèse Lachman, ascendeu socialmente na França de Napoleão III como cortesã. Época chamada de Período Dourado pelos que a vivenciaram, a Europa sem guerras a partir de 1815 viu chegar uma era de prosperidade, tanto na economia e na ciência quanto nas diversas formas de artes. Tal prosperidade não era mais somente um privilégio da classe nobre, mas se estendeu também às novas fortunas surgidas com a Revolução Industrial e que usavam as extravagâncias do luxo como forma de demonstrar poder.

Contemporânea de outra famosa cortesã, Alphonsine Duplessis - imortalizada por Dumas como a Dama das Camélias- Thérèse tinha uma beleza exótica (cabelos negros emoldurando um rosto de traços mongóis), era esperta, incrivelmente ambiciosa e sem escrúpulos e foi em Paris que desenvolveu sua paixão pelo luxo e por jóias.

Casada aos 17 anos com um peleteiro de nome Antoine Villoing, com quem teve um filho,  logo se cansou da vida simples de mulher de um pequeno comerciante de peles e abandonou filho e marido para viver e trabalhar em um bordel de luxo no Marais que tinha como clientes ricos comerciantes, nobres e artistas, como o compositor Richard Wagner.

Em três anos, Thérèse já possuía vários vestidos luxuosos e algumas jóias e peles, dadas de presente pelo seu amante mais apaixonado, o inglês Lord Stanley. Com a morte do primeiro marido, passou a procurar um segundo e o encontrou na pessoa do marquês português Albino Francisco de Paiva Araújo, que não imaginava exatamente o movimentado passado amoroso da agora marquesa de Paiva, ou La Paiva, como Thérèse passou a ser conhecida na sociedade. Frustrado e com vergonha ao descobrir detalhes do passado da esposa, suicidou-se com um tiro em 1872.

Após a morte do segundo marido, La Paiva casou-se com o conde prussiano Guido Henkel Von Donnersmarck, imensamente rico, de família da alta nobreza e amigo do imperador alemão, além de 11 anos mais moço. Como condessa, apesar da sociedade parisiense jamais ter cruzado os umbrais dos belíssimos portões da mansão do conde na Avenida Champs Elysée, Thérèse finalmente atingiu o patamar máximo da sua ambição e passou a experimentar todos os luxos ainda não desfrutados.

Tornou-se uma das mais assíduas clientes da Maison Boucheron e, entre 1878 e 1883, fez exatamente 30 visitas, nas quais adquiria gemas que depois entregava à própria Maison para que fossem feitas jóias de acordo com seu gosto, ou então comprava várias peças prontas de uma só vez. Uma de suas mais memoráveis aquisições aconteceu em 1882, quando comprou por 157.000 francos (em valores da época) pérolas, esmeraldas, rubis e safiras, para no dia seguinte voltar à Boucheron e encomendar a montagem de várias jóias, dentre as quais um bracelete decorado com três grandes esmeraldas, uma rivière contendo 12 diamantes e 13 rubis e outra contendo 15 diamantes lapidados em brilhante e 15 esmeraldas em lapidação esmeralda. Esta última rivière foi levada à leilão pela Christie`s de  Genebra, Suíça, em 15 de novembro de 2007, e arrematada por um milhão de novecentos mil Euros.

La Paiva morreu em 1884, aos 64 anos, no castelo de seu marido, em Neudeck, Alemanha. Em 1887, o conde casou-se novamente, desta vez com uma jovem aristocrata russa, Katharina Slepzow, a quem presenteou com a maior parte das jóias pertencentes à primeira esposa.

Thérèse continuou a surpreender mesmo depois de sua morte: seu corpo, embalsamado numa solução alcoólica dentro de um enorme jarro de vidro, foi descoberto pela segunda esposa do Conde Von Donnersmarck num quarto que permanecia há anos fechado à chave, dentro do castelo. Conta-se que o conde ficava trancado por horas dentro do quarto, chorando a morte de La Paiva..

21 de jul. de 2011

A Idade do Ouro da Ourivesaria Celta Na Irlanda


      Entre os séculos VII e IX d.C. a arte da ourivesaria praticada pelos celtas na Irlanda atingiu seu apogeu. Durante este período, os celtas elevaram o estilo La Tène (Cultura da Idade do Ferro européia, cujo nome se deve ao sítio arqueológico de La Tène, situado às margens do lago Neuchâtel, Suíça, onde uma grande quantidade de objetos e joias em metais preciosos foi descoberta em 1857) a um novo patamar. Deve-se isso, em grande parte, a um fluxo migratório de ourives e artesãos estrangeiros que introduziu novas técnicas e temas, criando um fértil e potente mix de idéias e novos designs. Assim, alguns dos mais preciosos exemplos de joias celtas foram confeccionados em terras irlandesas. Mesmo com influência estrangeira, as joias celtas irlandesas mantiveram as tradições culturais, já que os ourives e artesãos selecionaram e moldaram, ao gosto local, as idéias importadas.
     A peça de joalheria que mais traduziu a capacidade dos ourives e artesãos celtas da Irlanda foi, definitivamente, o broche. Semicirculares (o broche celta, já usado desde o século V d.C., era composto de um pino longo preso por sua cabeça a uma estrutura semelhante ao anel (penannular, que significa “quase anel”), sendo que o pino podia mover-se livremente ao redor do mesmo, já que a estrutura, na verdade, não era fechada, existindo uma lacuna entre os terminais de largura suficiente para o pino poder passar), eram peças extremamente funcionais, pois usavam um mecanismo simples e eficiente para a fixação das indumentárias usadas à época. 
    Broche Londesborough
  foto Museu Britânico

     Durante os séculos da Idade do Ouro da ourivesaria celta na Irlanda, os broches tornaram-se extremamente intricados no seu design e ricos na sua decoração, com gemas e técnicas como a gravação em metal, o niello, a esmaltação champlevé e a filigrana, formando peças de incrível beleza. Os broches Roscrea, Tara, Cashel e Londesborough são exemplos magníficos da arte da ourivesaria celta da Irlanda.    

8 de nov. de 2009

O Tesouro de Ziwiye

Foto Metropolitan Museum NYC


Composto de jóias e objetos em ouro, prata e marfim, esse tesouro cita foi descoberto em 1947 no território iraniano às margens do lago Urmia, atualmente habitado pelos curdos, a mais numerosa etnia sem Estado do mundo.

Os objetos do tesouro fazem arqueologicamente a ponte entre as tribos habitantes desta região e as que remanesceram nas estepes da Ásia central, já que o design das jóias encontradas e também dos outros objetos são antropomórficos, expressão artística preferida pelos citas. Apesar disso, no tesouro encontram-se objetos representantes de quatro culturas: assíria, cita, grega e a das tribos que habitavam a região do atual Irã. Datado provavelmente de 700 aC, o tesouro evidencia esta região iraniana como ponto de cruzamento de várias rotas comerciais que promoveram o início da formação da arte iraniana, notadamente a Rota da Seda.

Espalhado por coleções privadas e em museus, o tesouro foi encontrado por um jovem pastor de ovelhas em uma montanha perto da pequena vila de Ziwyie. O tesouro parece ter sido enterrado nas muralhas de uma antiga cidadela, cujas raras ruínas remanescentes ainda podem ser vistas. Construídas com grandes tijolos as muralhas possuíam, em certos trechos, 7,50 metros de espessura. O edifício principal da cidadela era, ao que parece aos arqueólogos, um palácio erigido com tijolos e colunas de madeira e decorado com azulejos nas cores azul, amarelo e branco à semelhança dos antigos palácios de Susa e Nínive, a antiga capital assíria.

Algumas jóias sugerem, pelo seu design, uma “egiptização” das artes naquela região, mas que muito provávelmente não foi diretamente influenciada pelo Egito, porém por produtos vendidos por mercadores fenícios e sírios que passaram pelas rotas de comércio existentes na região: o colar peitoral de ouro em forma de crescente, dividido em duas partes, cada uma com a representação de uma árvore( semelhante a uma palmeira) no meio e ladeadas por touros e leões alados, esfinges e grifos é um exemplo desta arte influenciada por diferentes culturas.

O magnífico bracelete com figuras de pequenos leões no meio da peça e com cabeças de leões adultos nas extremidades, uma das quais podia ser removida para acomodação da peça ao braço, lembra as esculturas hititas em pedra encontradas do sudoeste da Anatólia ( atual Turquia) com a diferença de que, no bracelete, os planos ascendentes terminados em linhas angulares do design da peça caracterizam a posição dos animais centrais e o próprio formato da mesma. Tais linhas determinando planos polidos atraíam os antigos usuários da jóia, assim como ainda hoje, no Museu Metropolitano de Nova York. Este tipo de técnica em ourivesaria, que procura tirar o máximo do brilho do metal em contato com a luz, era há quase 3.000 anos atrás uma técnica nova, que provavelmente derivou do trabalho em osso ou madeira.

24 de ago. de 2009

O Diadema de Madame Royale

Museu do Louvre

Alexandre-François Caminade, Museu do Louvre




Maria-Theresa Charlote da França nasceu em Versailles em 19 de dezembro de 1778. Primeira filha de Luís XVI e de sua rainha Maria Antonieta, recebeu no nascimento o título honorífico de Madame Royale, reservado às filhas dos reis franceses. Apesar de seu nascimento ter sido uma decepção para a Corte francesa esperançosa do nascimento de um Delfim ( príncipe herdeiro do trono da França), a pequena Maria-Theresa foi imediatamente adorada por sua mãe, que a apelidou de Mousseline.
Seus primeiros anos foram felizes, ao lado dos pais e dos irmãos mais novos, em Versailles. Mas no dia 05 de outubro de 1789, uma enorme multidão tomou conta do palácio e exigiu a mudança do rei e de sua família para Paris, onde foram instalados no palácio das Tulherias, e uma vida inteiramente inesperada começou para a pequena princesa. A tentativa de fuga interceptada na cidade de Varennes tornou ainda mais dramática a vida da família real que, buscando refúgio no prédio da Assembéia Legislativa de Paris, acabou presa na torre do antigo palácio medieval do Templo. Em 21 de janeiro de 1793 seu pai, outrora Luís XVI da França, foi guilhotinado como Luís Capeto e, em 16 de outubro do mesmo ano, morria também guilhotinada Maria Antonieta. Deixada aos cuidados de Madame Elizabeth, sua tia paterna, também logo a perdeu, quando esta foi executada em 10 de maio de 1794. Não restava mais ninguém da sua família direta, já que os dois irmãos mais novos morreram muito pequenos e o Delfim Luís Carlos, nomeado Luís XVII após a morte de seu pai, foi retirado pela guarda do exército revolucionário, desaparecendo pouco depois do julgamento da mãe, Maria Antonieta. Todos os tios e parentes mais próximos que puderam, já haviam fugido da França há algum tempo.
Em 18 de dezembro de 1795, Maria-Theresa foi finalmente libertada da prisão na torre do Templo, seguindo para a Viena natal de sua mãe. Depois de Viena, foi encontrar-se com seu tio paterno em Jelgava,Letônia, hóspede do czar Paulo I. Como não possuia filhos, o auto-proclamado Luís XVIII persuadiu a sobrinha a casar-se com o primo Luís Antônio d’Artois, duque de Angoulême e filho mais velho do futuro rei francês Carlos X, irmão mais novo de Luís XVIII. A família mudou-se para a Inglaterra, de onde só saiu para voltar à França, após a abdicação de Napoleão I em 1814. Agora verdadeiramente Luís XVIII, o irmão mais novo de Luís XVI pouco reinou, porque logo Napoleão retornou à França, em março de 1815. O rei fugiu, mas Maria-Theresa permaneceu na França, em Bordeaux, correndo sério risco de ser aprisionada pelas tropas napoleônicas. Por não ter fugido, Napoleão I referiu-se a ela como sendo “o único homem da família”.
Após a derrota de Napoleão I na Batalha de Waterloo em 18 de junho de 1815, a Casa de Bourbon é restaurada e Luís XVIII volta do exílio. Com a morte deste em 16 de setembro de 1824, seu irmão mais novo o conde d’Artois assume o trono francês como Carlos X e Maria-Theresa, casada com o agora novo Delfim, torna-se Delfina da França. Após muitas reviravoltas políticas, durante as quais foi rainha da França por exatos 20 minutos, Maria-Theresa terminou seus dias em paz na Áustria, morrendo de pneumonia em 19 de outubro de 1851, três dias antes do 58º aniversário da execução de sua mãe, Maria Antonieta.
Com a ascenção ao trono em 1814, Luís XVIII teve a sua disposição as jóias da Coroa francesa, instituição criada por Francisco I em 1530 - e bastante desfalcada durante o período da Revolução - e as levou com ele para o exílio, quando Napoleão retornou à França. Quando do seu retorno em 1815, encomendou aos ourives reais Paul-Nicolas Menière e Evrard Bapst que desmontassem todas as parures da última esposa de Napoleão I, Maria Luísa, e criassem peças mais de acordo com a moda então vigente para serem dadas à Maria-Theresa. Assim, o magnífico diadema em ouro e prata e contendo 1.031 diamantes e quarenta esmeraldas foi criado pelos ourives, bem como outras peças de imensa beleza.
Em 1887, o Estado francês vendeu todas as jóias remanescentes da Coroa, evento sem precedentes, e as jóias foram dispersadas pelo mundo. O diadema, durante anos na Inglaterra após sua venda, foi comprado pelo Museu do Louvre em 2002, estando desde então em exposição pública.

14 de jul. de 2009

As Jóias no Vestuário Renascentista Italiano

La Belle Nani, Veronese
Museu do Louvre



Durante o Renascimento ( séculos XV e XVI), que na Itália começou mais cedo em fins do século XIV, gemas como as pérolas e os diamantes eram muito apreciadas tanto na composição de jóias como para adorno de roupas, cabelos, chapéus e até mesmo, calçados.
Com a conquista das Américas foram descobertas novas jazidas de pérolas, principalmente na América Central, que passaram a abastecer a Europa, importadora até então das pérolas da Índia, Ceilão ( atual Sri-Lanka) e do Golfo Pérsico. As principais jazidas de diamantes ainda eram na Índia.
Acompanhante obrigatória das toilettes da nobreza e da alta burguesia, as pérolas eram tão abundantes na decoração de vestimentas suntuosas que na Europa inteira vários éditos, chamados éditos suntuários, tentaram normatizar- dentre outros aspectos abrangidos- sem sucesso, o uso demasiado das gemas no vestuário tanto feminino quanto masculino, assim como o luxo demasiado das cortes. Em várias ocasiões, a toilette de uma dama nobre ou da alta burguesia era composta por jóias usadas junto com vestidos luxuosamente decorados com pérolas, diamantes, rubis, esmeraldas, safiras e ouro, como podemos verificar no quadro de Paolo Caliari, dito Veronese (1528-88), intitulado “A Bela Nani” e pintado por volta de 1560.
No retrato da bela dama veneziana, seus cabelos estão entrelaçados com pérolas, colar de uma só volta também de pérolas sem nenhum detalhe de outra gema ou metal à mostra, três anéis (um deles, possívelmente, uma aliança) nos dedos de ambas as mãos e um bracelete em cada pulso, cujo design emoldura diamantes (o diamante era retratado à época na cor escura, já que a lapidação conhecida e utilizada para esta gema refletia muito pouco a luz) e rubis.
Já no vestido composto principalmente por tecidos como veludo, seda brocada e rendas, podemos notar luxuosos componentes decorativos representantes da arte da joalheria renascentista italiana: uma corrente de ouro dupla presa por broches em ouro com diamantes no corpete; dois grandes broches em ouro, pérolas e diamantes adornam os ombros e mantém preso o véu que compõe o traje; e uma grande máscara feminina de estilo greco-romano e com design característico do período ( encontrado também em outras jóias, assim como em elementos decorativos arquitetônicos e de mobiliário), decorada com diamantes e rubis e tendo como pendente uma grande pérola, arrematando um collier ceinture em ouro e diamantes.

9 de mar. de 2009

O Tesouro Maikop






Fotos BCE



O Tesouro de Maikop é a maior coleção arqueológica mundial na região que compreende a costa norte do Mar Negro e o nordeste do Cáucaso. Mais de 2.000 peças, que abrangem um período de mais de 4.500 anos ajudam a compreender a história das tribos nômades desta parte do mundo. A grande maioria das peças data circa 3500 aC , apesar de existirem outras peças mais antigas. As peças mais novas do tesouro datam do século XIV.

Cronologicamente, a Cultura Maikop, da qual a coleção conhecida como Tesouro de Maikop é considerada sua melhor representante em termos arqueológicos, pode ser dividida da seguinte forma:

1.Período Cita ( 6000-4000 AC)

2.Idade do Bronze (3000- 2.000 AC)

3. Período Sármata (séculos II – IV )

4. Idade Média ( séculos VII- XIV)

O tesouro atualmente se encontra no Museu Nacional e no Museu da Pré-História, ambos em Berlim, Alemanha e nos EUA, no Museu Penn da Universidade da Pensilvânia e no Museu Metropolitano de Nova York.

A descoberta do tesouro se deve a M.A.Merle de Massoneau, fundador do Banco do Oriente em Paris e que antes trabalhou durante quase duas décadas como diretor das vinícolas imperiais russas do czar Nicolau II na Criméia e na região do Cáucaso. Ao longo deste tempo, de Massoneau reuniu uma enorme e incrível coleção.

Mais de cem anos atrás de Massoneau começou a sua coleção a qual somente na década de 30 do século passado encontrou seus donos permanentes nos museus já citados, tornando-os os maiores possuidores de antiguidades da Europa Oriental fora da Rússia.

Infelizmente, porém, vários objetos que permaneceram em solo russo sofreram danos ou simplesmente desapareceram durante a II Guerra Mundial, notadamente os itens encontrados nas tumbas reais citas de Aleksan-dropol, Chmurev e Mordvinovskii e que estavam guardados no Museu de História de Kharkov e no Museu Nacional de História em Kiev, ambos na Ucrânia,. Também objetos guardados no Museu Nacional de Berlim foram roubados, quebrados ou sofreram com o fogo, durante o bombardeio da cidade pelos Aliados ocorrido em 1944.