29 de set. de 2008

A esmeralda "Rainha Isabela"

Foto Treasure Diver Magazine

As grandes rotas marítimas estão repletas de naufrágios que nos contam um pouco da maneira como as gemas eram negociadas, alguns séculos atrás.

Em 1993, buscando resgatar tesouros afundados com antigas embarcações, uma equipe de mergulhadores profissionais encontrou à grande profundidade, na costa da Flórida, EUA, três embarcações espanholas datadas do período colonial. No interior de uma das naus, ficaram frente a frente com a mais bela descoberta arqueológica do fim do milênio passado: dentro da embarcação estavam 25.000 quilates de esmeraldas lapidadas, conjuntos de peças cerimoniais pré-colombianas em ouro, cristais de esmeraldas pesando 24.644 quilates, além de centenas de jóias excepcionais, tudo de um valor inestimável.

Mas o grande tesouro encontrado é a “Rainha Isabela”, uma esmeralda de 964 quilates que se julgava perdida para sempre. De forma rara, oblonga e com uma limpidez extrema, foi estimada na época da sua descoberta em 11,5 milhões de dólares. A fantástica esmeralda pertencia a Hernán Cortez, conquistador espanhol do México.

Foi o próprio Cortez que deu à gema o nome da rainha espanhola Isabela de Castela, falecida em 1504, ano do seu embarque para o novo mundo. Hernán Cortez deu esta esmeralda e outros objetos preciosos para sua segunda esposa, dona Juana de Zuniga, como presentes de casamento, e foi para repatriar estes tesouros, duzentos anos mais tarde, que a família Zuniga fretou a nau que acabou naufragando nas águas da Flórida. As outras esmeraldas encontradas pertenciam ao próprio Cortez. Vários testemunhos da época atestam que ele portava sempre ao redor do pescoço um fantástico colar com cinco esmeraldas gravadas com desenhos de flores e pássaros oferecidos pelo imperador asteca Montezuma.

10 de set. de 2008

A Joalheria Beduína

Foto Aramco

Em Jawan, Arábia Saudita, foi descoberta em março de 1952 pelo arqueólogo F.S.Vidal uma tumba que esclareceu muito da vida dos habitantes das regiões que são banhadas pelo Golfo Pérsico. Apesar de a tumba ter sido violada e roubada, provavelmente ainda na primeira década após sua construção, aproximadamente no século I DC, foi subseqüentemente usada como um ossuário por gerações. A escavação inicial encontrou 80 esqueletos na câmara central, assim como fragmentos de vidro e cerâmica, várias contas feitas de vidro e cornalina, assim como uma pequena espátula de bronze.
Foi somente após um completo exame da tumba central que o arqueólogo e sua equipe descobriram as outras quatro tumbas, estas seladas e que proporcionaram um melhor entendimento da cultura Jawan. A mais emocionante descoberta foi o corpo de uma menina de seis anos: aparentemente morta em um ritual de sacrifício, foi enterrada com objetos do seu uso diário, incluindo jóias como um par de brincos em ouro e pérolas e um colar feito com contas em ouro, ametistas, granadas, ônix, cornalina e pérolas. O objeto mais precioso encontrado na tumba da menina foi, entretanto, uma pequena estátua de Vênus em alabastro, comum à cultura Greco - helenística.
As contas em ouro encontradas nas pontas do colar, datado do século I aproximadamente, em forma de massa (redondas e com pontas em toda a sua superfície) possuem o mesmo design que contas encontradas em colares gregos datados do IV século AC. Tais contas, identicamente reproduzidas, também aparecem na joalheria beduína em prata usada em outras regiões da Península Arábica (península desértica na região do sudoeste asiático, localizada na junção com a África e que compreende países como Bahrein, Kuwait, Oman, Qatar, Arábia Saudita, Yemen, Jordânia e Emirados árabes Unidos) provando assim as estreitas trocas comerciais existentes na Antiguidade nesta região.
Há evidências que comprovam estas trocas comerciais. Há aproximadamente 2.000 atrás, quando o sudoeste asiático era chamado pelos romanos de Arabia Felix (Arábia Feliz), as grandes riquezas que passaram pelas suas rotas comerciais indubitavelmente incluíram joalheria de outras regiões, incluindo a conta em forma de massa. Esta conta foi desenhada para ser usada nas pontas de um colar, de forma a segurar o fecho do mesmo.
Tradicionalmente, os colares beduínos contêm contas em prata e também contas multicoloridas, em ambos os casos em formas irregulares, outro eco das características das jóias antigas. O que suporta esta teoria é, naturalmente, o fato de que a Península Arábica, durante vários períodos da História, esteve relativamente isolada. Como resultado, antigos padrões de manufatura de jóias e designs têm sido repetidos, e preservados, por séculos. De certo modo, a joalheria beduína dos nossos dias é uma fascinante janela para um passado distante.
As jóias usadas pelas mulheres beduínas são sempre novas. Não existe a tradição, como no Ocidente, de herdar jóias de família, já que todas as jóias de uma mulher beduína são derretidas, após sua morte. Tendo sido dadas como dote pela sua família, é inaceitável para o costume beduíno que elas sejam ofertadas a outra mulher. Além disso, em geral as jóias estão muito usadas e às vezes, quebradas.
As jóias representam para a mulher beduína sua riqueza pessoal e, em tempos difíceis, são vendidas para serem derretidas por um ourives que confeccionará novas peças, mas sempre no mesmo estilo tradicional. Assim, existem padrões de design que continuam a ser usados e que remontam há 6.000 anos atrás.

29 de jul. de 2008

A Coleção al-Shabah

Foto Museu Nacional do Kuwait

A grandeza imperial, o refinamento e a opulência com os quais os Mughal, governantes da Índia entre 1526 e 1858, eram reconhecidos encontraram na joalheria sua expressão máxima.
A reputação da Índia como centro de produção joalheira, data de tempos antigos. Durante a Idade Média, as minas indianas em Golconda eram grandes produtoras de diamantes de alta qualidade. Através de rotas comerciais, rubis de Burma (atual Mianmar), espinélios do Badaquistão (região norte do Afeganistão), esmeraldas da Colômbia e safiras do Sri Lanka eram lapidadas e passavam a fazer parte de jóias maravilhosamente elaboradas.
Os ourives indianos dominavam a técnica de cravação de gemas conhecida como kundan (ouro puro em híndi), onde finíssimas folhas de ouro (24 quilates) eram colocadas juntas através de pressão e em temperatura ambiente, em volta das gemas, dispensando o uso de ferramentas de cravação. Esta técnica permitia uma incrível liberdade para os artesãos criarem seus designs e é ainda utilizada hoje em dia.
Na arte da lapidação, os artesãos indianos também obtinham distinção pela técnica de esculpir gemas mais duras, como o jade, o que agradava aos governantes Mughal, descendentes do conquistador mongol Timur (também conhecido por Tamerlane), que dominou uma vasta região da Índia no século XIV DC.
A maior e mais completa coleção de jóias Mughal está no Museu Nacional do Kuwait, e é chamada de Coleção al-Shabah graças ao Sheik Nasser e a sua esposa Hussah, membros da família real do Kuwait.

Na sua totalidade, a coleção al-Shabah compreende mais de 25.000 peças de arte islâmica datadas entre os séculos VII dC e o século XIX, sendo as mais de 300 jóias e objetos Mughal apenas uma parte desta vasta coleção. Criteriosa e apaixonadamente colecionadas ao longo de mais de três décadas pelo Sheik Nasser Sabah al-Ahmad al-Shabah, a fantástica coleção sobreviveu às vicissitudes da Guerra do Golfo de 1990, durante a qual uma grande parte do acervo do Museu Nacional do Kuwait, incluindo a coleção al-Shabah, foi levada em grandes caminhões para o Museu do Iraque em Bagdá, por um grupo de arqueólogos iraquianos obedecendo à ordens do governante do Iraque de então, Saddan Hussein. Grande parte das peças retiradas do Kuwait foi repatriada, através da ONU, mas alguns itens de alto valor e raridade continuam desaparecidos, como três raríssimas esmeraldas indianas esculpidas.
Algumas peças Mughal da coleção al-Shabah são dignas de nota: um espinélio entalhado com os títulos de vários proprietários pertencentes a dinastias islâmicas; esplêndidos ornamentos de uso pessoal, como o pendente em camafeu que retrata o imperador
Shah Jahan ( idealizador e construtor do Taj-Mahal); uma fabulosa adaga incrustada de gemas; várias peças delicadamente esmaltadas; caixas feitas de jade e cristal-de-rocha, decoradas com gemas diversas; grandes rubis e esmeraldas entalhados com designs florais, além de outras gemas como safiras, espinélios e diamantes, belamente entalhados com designs diversos; delicadas esculturas em jade e magníficas jóias decoradas em esmaltes com a técnica inlay.

Foto Museu Nacional do Kuwait