30/10/2013

As Principais Técnicas Decorativas Na Joalheria Através Da História



As joias possuem muitos designs e formas diferentes e servem a uma grande quantidade de propósitos, não só o do simples adorno pessoal. Na joalheria artesanal, existem várias técnicas para decoração de joias, que possuem centenas ou milhares de anos e são utilizadas ainda hoje em dia. Algumas técnicas possuem nomes em francês, italiano ou inglês, que serão traduzidos literalmente ou terão sua explicação em português, entre parênteses.

- Esmaltação
A esmaltação é uma técnica decorativa usada para trazer cores às joias, sem a necessidade das gemas. A técnica possui vários usos diferentes, podendo constituir-se em uma decoração secundária ou sendo o foco principal da joia. O esmalte é um composto transparente vítreo colorido com a adição de óxidos metálicos. Em forma de pó, o composto é colocado em cima da superfície metálica a ser decorada e então aquecido, até que derreta e seja fixado na área escolhida. Apesar de ter um alto grau de aderência ao metal, o esmalte é uma forma de vidro e, consequentemente, propenso a rachar ou até mesmo descolar do metal se não aplicado corretamente. Geralmente, uma superfície plana esmaltada terá seu reverso também esmaltado de maneira a balancear as forças de expansão e contração produzidas no metal. 

  • Cloisonné (cloison=célula, compartimento, em francês): técnica de esmaltação criada pelos antigos gregos na qual o desenho a ser decorado na peça de joalheria (em geral em ouro) é feito por células formadas a partir de pequenas grades, nas quais o esmalte é depositado e depois aquecido. As células podem ser niveladas à superfície metálica ou somente polidas, dando ao desenho um aspecto vítreo. 
    Fivelas para manto, Tesouro de Sutton Hoo
    Foto British Museum


  • Champlevé (“campo elevado”, em francês): técnica de esmaltação onde, em vez das células da técnica anterior, o metal é escavado (ou gravado) com buril ou cinzel, fazendo com que o esmalte seja depositado nas áreas escavadas e, depois de aquecido, permaneça no mesmo nível da superfície metálica. Técnica criada na Antiguidade.  

         Bracelete, séc.XII, Foto Musée du Louvre



  • Basse-taille (“baixo-relevo”, em francês): Variação da técnica champlevé, onde a área escavada do metal é decorada com um design em padrão, podendo ser ele gravado ou em baixo-relevo, e depois recoberto com esmalte translúcido, assim fazendo com que o design seja visto através do composto vítreo. Técnica muito usada pelos antigos romanos.

    Medalhão, séc.XIV, Foto Musée National du Moyen Âge


  • Plique à jour (“aberto à luz”, em francês): Talvez a técnica de esmaltação mais difícil e também a mais frágil. Diminutas células recortadas na superfície metálica são preenchidas com esmalte transparente, proporcionado o mesmo efeito dos vitrais. Desenvolvida na França e na Itália durante o século XIV e muito usada por artistas durante a Renascença e também durante o Art Nouveau.
                                    Broche Pansy, René Lalique, séc. XX, Foto Walters Art Museum

  • Limoges: Técnica de esmaltação que requer conhecimentos de pintura. O esmalte é reduzido a um pó finíssimo e, com um pincel, aplicado à superfície metálica. Como são usadas várias cores de esmaltes, o processo passa por vários estágios de aquecimento. Técnica criada na cidade francesa de Limoges, durante o século XII.

     
                                                    Cibório, séc.XII, Foto Musée du Louvre


  • Grisaille (grisalho, em francês): Técnica de pintura com esmalte que usa somente dois tons. O design é feito em esmalte branco sobre uma superfície metálica esmaltada em preto ou azul. Popularizada durante a Renascença, especialmente na França.

                                           Foto Musée National du Mouyan Âge



- Filigrana
Esse delicado método de decoração de joias requer paciência e muita habilidade. Finíssimos fios de metal são dobrados, torcidos e tornados chatos: essa é a base da técnica da filigrana. Com essa base, podem ser feitas lindas decorações em joias e, até mesmo, uma joia inteiramente feita em filigrana. A melhor e mais delicada técnica de filigrana é a open-back (fundo aberto, em inglês). Um dos grandes segredos da filigrana, além da paciência e da criatividade, é a solda que tem que ser feita à uma temperatura que não comprometa os designs formados pelos fios torcidos. A técnica foi criada pelos antigos etruscos, e muito usada por ourives da antiga Grécia, especialmente durante o Período Helênico. 
Pendente em cruz espanhol, séc.XIX
Victoria and Albert Museum
                                           

- Granulação
Exemplos dessa técnica decorativa podem ser encontrados em muitas joias antigas, mas nenhuma delas se igualou à qualidade da granulação criada pelos etruscos (a partir do séc. VI a.C.). Na granulação etrusca, minúsculas esferas de ouro eram afixadas a uma base de metal precioso, em geral ouro, por um método que unia a solda e a fusão. Usando esta técnica, os ourives etruscos eram capazes de realizar maravilhosos e delicados designs com grande precisão. A técnica aperfeiçoada pelos artesãos etruscos não pôde ser repetida durante 2.500 anos, apesar de várias tentativas feitas por ourives e artesãos ao longo dos séculos. Somente no séc.XIX, o joalheiro romano Fortunato Castellani e seus filhos foram os primeiros, depois de várias pesquisas em joias antigas, a conseguir repetir a técnica etrusca da granulação. (artigo http://www.historiadajoalheria.blogspot.com.br/2013/10/os-castellani-joalheiros-e-amantes-de.html).


                                   Brinco etrusco, 530-480 a.C., Foto British Museum


- Gravação
A técnica da gravação é talvez a técnica decorativa mais utilizada na joalheria, e a mais antiga, quando se trata de decoração de superfície de metais preciosos. Ainda assim, foi preciso o domínio da metalurgia do ferro, metal superior ao bronze em relação à dureza e a abundância de jazidas (Idade do Ferro: as primeiras indicações de sociedades com nível cultural e tecnológico correspondente à Idade do Ferro surgiram no século XII a.C. no Oriente Próximo, na Índia, na África e na Grécia. Em outras regiões da Europa, o início da Idade do Ferro deu-se mais tarde, a partir do século VIII a.C.) para que surgissem as ferramentas necessárias para a técnica da gravação. Como algumas das ferramentas mais usadas estão os rolos ou cilindros para gravação: dois rolos ou cilindros de aço (inicialmente, de ferro) contendo desenhos gravados em sua superfície que, ao pressionarem simultaneamente uma fita de metal precioso deixavam nela designs gravados, que poderiam se repetir em padrões infinitos. Mas a ferramenta para gravação mais comum desde tempos imemoriais é o buril, que permite ao artesão joalheiro uma gama extensa de possibilidades de designs gravados e, ainda, de “marcar” o seu trabalho, já que o trabalho de gravação com buril assemelha-se ao de um calígrafo com a pena, é único e pessoal.

                                        Anel-sinete da rainha Aregunda, séc. VI, Musée du Louvre

 
- Intaglio (“cinzelando”, em italiano)
A técnica do intaglio pode ser feita em uma grande variedade de superfícies, incluindo as gemas e os metais preciosos, no caso da joalheria. Na Antiguidade, a técnica do intaglio era utilizada principalmente para a confecção de sinetes ou anéis com o símbolo do clã ou família. Nas gemas, esculpiam-se magníficos designs com elaborados detalhes. O intaglio era e é feito artesanalmente esculpindo-se literalmente o metal precioso ou a gema. 

                                  Medalhão com o retrato do imperador Caracala em ametista
                                                        Foto Tesouro de La Saint Chapelle 
 
- Metal Inlay (“metal enquadrado”, em inglês)
A técnica do metal inlay é uma técnica onde diferentes cores de metal precioso ou diferentes metais preciosos são “enquadrados” em uma superfície preciosa já preparada com recortes feitos pelo cinzel, ou pela técnica decorativa da gravação. Essa técnica decorativa pressupõe o enquadramento de metais preciosos mais macios nas cavidades de superfícies metálicas preciosas mais duras.
                                                          Cinturão Wagner, séc.XIX
                                                    Foto Victoria and Albert Museum
- Mosaico
A criação de paisagens em miniatura para decoração de joias usando a técnica do mosaico existe desde o início do século XIX na Itália. A forma mais detalhada dessa técnica decorativa na joalheria é feita em Roma e é conhecida como “micro mosaicos”: a pintura é formada usando-se minúsculos tesserae ( azulejos) feitos geralmente de vidro colorido, que são cimentados na peça de joalheria.

  •       Pietra Dura (pedra dura, em italiano): Técnica desenvolvida em Florença, onde os tesserae são substituídos por gemas como ágata, malaquita e carneliana, que são aplicadas sobre um fundo negro. Os designs utilizados em geral são motivos florais.
                                                      Bracelete, séc.XIX
                                                          Foto Christie`s

- Niello (niellatura= escurecimento, em italiano)
Técnica inventada pelos antigos egípcios e espalhada pela Europa durante a Idade do Ferro, consiste na aplicação de uma liga de cor preto-esverdeada contendo prata, cobre, chumbo e enxofre, em linhas gravadas, células ou áreas escavadas na superfície metálica, que depois recebe aquecimento à baixa temperatura para aderência da liga ao metal. Depois, a superfície pode ser polida ou queimada e fica com um brilho metálico semelhante ao da gema conhecida como hematita.


                                  Fivela de cinto, Tesouro de Sutton Hoo
                                                 Photo Michel Wal

- Piqué (mergulho, em francês)
Usada para decorar cascos de tartaruga primeiramente, ou chifres de animais, essa técnica insere prata, ouro ou madrepérola nas linhas abertas por designs gravados na superfície. A técnica originou-se na Itália do século XVI.

                                                                        
                                     Par de brincos e pendente séc. XIX, Foto Christie`s


- Repoussé (empurrado, em francês)
A técnica do repoussé consiste em formar designs (desenhos ou padrões) em uma superfície chata de metal precioso, pelo método de martelar pelo lado “avesso” da chapa de metal para delinear o desenho ou estabelecer o/os padrão/padrões usando martelo de ourives e pinos de aço próprios para a técnica. Às vezes, nem todos os detalhes podem ser feitos pelo lado “avesso” da folha de metal, então se vira a chapa e a decoração é terminada com a complementação dos designs. Quando o método necessita desse último recurso, a ele é dado o nome de chasing (ou gravação em relevo, em inglês). Desde centenas de milhares de anos, o repoussé é uma técnica que consome muito tempo, normalmente sendo usada somente para joias significativas, sejam em tamanho ou valor.

                                                 
                                 Grande disco, Tesouro de Mildenhall, Foto British Museum
- Stamping (impressão, em inglês)
Em muitas peças de joalheria antigas que contam com 7.000 anos de idade foi utilizada a técnica do stamping, o que inicialmente a olhos leigos poder-se-ia pensar que fosse a técnica do repoussé. A técnica consiste em criar infinitos e pequenos desenhos na cabeça de pinos de aço (anteriormente utilizava-se o ferro) que, ao serem martelados contra uma fina folha de metal precioso, formam designs. Nessa técnica o ourives também pode utilizar o método da impressão por repetição (padrões), ao criar um carimbo com determinado desenho e pressioná-lo contra a folha de metal, com a ajuda do martelo de ourives. Ainda, pode criar o negativo do carimbo e utilizar ambos, de um lado e de outro da folha, para a impressão do desenho, fazendo com que o stamping fique mais acentuado. A qualidade do stamping depende da maestria e da criatividade do profissional joalheiro.


                                              
Broche de prata em forma de disco, séc.IX, Tesouro de Pentney
Foto British Museum




29/10/2013

Os Castellani: Joalheiros e Amantes de Antiguidades

O italiano Fortunato Pio Castellani (1793- 1865) abriu sua primeira oficina de jóias em 1814, que logo passou a ser reconhecida pelo design inovador ao imitar criativamente as jóias francesas e inglesas contemporâneas. Em 1830, Castellani começa a criar jóias inspiradas nas antigas jóias etruscas descobertas na tumba Galassi e encorajado pelo duque Michelangelo Caetani, amigo e mecenas, Castellani se torna o primeiro joalheiro do século XIX a criar peças modeladas a partir de antigas peças italianas e gregas, porém criando um novo estilo.

A admiração de Castellani pelo sofisticado trabalho de ourivesaria encontrado em jóias da Antiguidade e o seu desejo pessoal de incrementar a arte da joalheria italiana, fizeram-no perseguir os mistérios da arte da granulação, então considerada perdida, mas que era conhecida e dominada pelos etruscos (séc. IX ao séc. IV AC). O estudo e a pesquisa da antiga arte da granulação absorveu a família Castellani por décadas, e é uma das maiores contribuições feitas pelos Castellani à história da joalheria. 

 
Em meados de 1850, os dois filhos de Castellani, Alessandro e Augusto, começam a assumir gradualmente à frente dos negócios e utilizam um excelente trabalho de marketing para tornar famosa a “joalheria arqueológica” iniciada pelo pai, não somente entre as aristocracias italiana e internacional, mas também entre turistas refinados e artistas que visitavam Roma. 

Por volta de 1860, Alessandro Castellani abre lojas em Paris e Londres e inicia sua própria firma com sede em Nápoles. E pela primeira vez, a Castellani expôs suas jóias em exposições internacionais acontecidas em Florença, Paris e Londres, com um sucesso tão estrondoso que logo as jóias Castellani passaram a ser imitadas por toda a Europa. Em 1876, as jóias antigas colecionadas pelos Castellani e suas reproduções foram vistas pelos americanos na Exposição do Centenário em Filadélfia e no ano seguinte o Museu Metropolitano de Nova York apresentou as jóias Castellani.

As jóias Castellani distinguem-se pelo uso de desenhos geométricos não muito elaborados realçados por padrões decorativos como granulações, filigranas e minúsculas flores aplicadas com precisão. Mosaicos em miniatura aplicados nas peças lembram as primeiras jóias cristãs de Roma, Ravena e Constantinopla. Gemas, camafeus e insetos como o escaravelho, são os pontos centrais de algumas jóias, assim como em outras o que atrai o olhar é o maravilhoso trabalho de esmaltação, demonstrado em diferentes técnicas e numa rica variedade de cores.

Uma das razões mais importantes para entendermos a motivação dos Castellani em reviver os estilos e técnicas de ourivesaria dos antigos etruscos e romanos foi o nacionalismo italiano então nascente, que logo levaria a uma Itália unificada. Imbuídos de sentimentos patrióticos, os Castellani também resolveram estudar todos os períodos da história da joalheria italiana e tiveram muito sucesso ao reviver os períodos medieval e renascentista italianos.

Ao mesmo tempo em que eram grandes joalheiros, os Castellani também eram excelentes comerciantes e restauradores de antiguidades e patrocinavam escavações arqueológicas. Num esforço para preservar as melhores peças para Roma, a família era possuidora de grandes coleções de delicados vasos, bronzes e jóias encontradas em sítios arqueológicos pela Itália. A magnífica loja de Augusto Castellani, próxima a Fontana di Trevi, era praticamente um museu, tantas eram as maravilhosas peças ali expostas. Além de gerenciar seus bem-sucedidos negócios, principalmente Fortunato e seu filho Augusto ajudavam a manter vários edifícios públicos antigos e também museus romanos, como uma demonstração de amor a sua querida Roma. O filho mais velho Alessandro, preso por suas atividades políticas republicanas e exilado, mais tarde ajudou enormemente a expansão e o reconhecimento das jóias Castellani no exterior.

14/08/2013

O Mistério do Tesouro de Sutton Hoo





Enterrado perto do estuário do Rio Deben, no local conhecido como Sutton Hoo, em Suffolk, Inglaterra, o barco que pertenceu a um rei saxão foi descoberto em 1939, poucos meses antes de ter início a II Guerra Mundial. Estudos indicam que possa ter pertencido ao rei pagão Raedwald, que viveu nesta região por volta do século VII e morreu em 625 dC. Um dos chamados Quatro Senhores da Bretanha, e conhecido como rei da Anglia do Leste, reinou sobre reinos menores e reverteu toda a região sob seu domínio ao paganismo, admitindo nos mesmos altares os deuses pagão e o Deus cristão.

O interior do barco foi encontrado totalmente recoberto por tapetes e contendo todos os objetos pertencentes a um rei guerreiro: elmo, cota de malhas, espada, escudo, martelo usado em batalhas, fivelas para manto e botões para vestimenta, cetro, uma lança que provavelmente deve ter servido como porta-estandarte, moedas e diversos objetos de uso diário, como vasilhas em prata e em bronze, pratos de madeira, chifres que serviam como copos para servir bebidas, uma enorme e intrincada corrente e pedaços de tecidos feitos em lã nas cores índigo, vermelho e amarelo.

Elmo
British Museum

Feito em ferro, o elmo é decorado com finas folhas de bronze e detalhes em prata, onde se encontram gravadas cenas com animais e também da mitologia escandinava. O escudo e a espada também são impressionantes. Inicialmente recoberto com madeira e lã grossa, o escudo agora somente mostra a sua estrutura em ferro e dois animais que o decoram: um dragão e um pássaro, ambos em bronze e guarnecidos com granadas. O punho da espada é maravilhosamente decorado em ouro e granadas com a técnica do cloisonné e o corpo da espada consiste em várias folhas de ferro trabalhadas em paralelo, formando uma espada extremamente pesada e mortal.

Fivela para manto
British Museum


Mas é nos objetos menores, verdadeiras joias, como as fivelas para o manto e para o cinto, e a bainha da espada que podemos constatar a maravilha e a excelência dos ourives anglo-saxões daquela época. De confecção extremamente intrincada e delicada, sugerindo um virtuosismo do ourives, a fivela do cinto, em ouro e bronze, possui três fechos de segurança e as fivelas para o manto, feitas em ouro e decoradas com vidro em millefiori , cloisonné e granadas, são moldadas convexamente para se adequarem aos ombros e possuem um padrão decorativo zoomórfico, de design altamente sofisticado.
Não foram encontrados vestígios de um corpo no solo ácido da região onde o barco foi enterrado, o que sugere que o mesmo era um monumento em honra a um rei, que por sua vez foi enterrado em outro lugar. Evidências de fosfatos residuais provam, no entanto, que um corpo esteve um dia enterrado dentro do barco...


Fivela para cinto
British Museum