8 de set de 2014

Os Tesouros da Trácia



Anel de ouro ou broche
 ImpactPressGroup/AP


"Na história das civilizações assim como na história das personalidades, a infância é decisiva", escreveu o historiador francês Jacques Le Goff. Um dos berços da civilização européia está nos Bálcãs e os tesouros trácios o comprovam.

Por volta de 2000 a.C. foi formada a primeira e mais importante comunidade da Península Balcânica, a Trácia. Cobrindo uma vasta região geográfica, o antigo geógrafo e historiador grego Heródoto de Mileto escreveu que "os trácios, junto com os indianos, são as maiores populações da Terra.”


Já no primeiro milênio a.C. os trácios possuíam 90 tribos diferentes e, do século IV a.C. em diante, parte dessas tribos foram reunidas sob o cetro dos reis da poderosa Dinastia Odryses, fundada por Teres I. Os reis dessa dinastia acumularam grande quantidade de objetos e joias de alto valor artístico, os quais foram feitos por artesãos das várias partes do mundo conhecido à época que chegavam ao vasto território trácio, mas sob o controle rigoroso dos governantes, o que mantinha uma unidade no design e na composição das joias e de outros objetos feitos com ouro e prata. As aplicações zoomórficas e antropomórficas predominavam: anéis, colares, braceletes, tiaras, colares de batalha (torcs), discos para decoração de vestimentas, brincos, colares com contas de ouro e gemas e as fibulae (predecessoras do broche e usadas para segurar e compor trajes), além de adornos para cavalos. As mais antigas peças de ouro trabalhadas pelo povo trácio foram encontradas em sítios arqueológicos em regiões da Europa que hoje compreendem partes dos seguintes países: Grécia, Ucrânia, Romênia, Sérvia, Bulgária e Turquia e que formavam o território trácio na Antiguidade. 



      Torc (colar de batalha)    
              David Cheskin, PA Wire/AP            

Os objetos de valor datados do início do século IV a.C. que foram encontrados em sítios arqueológicos, faziam parte, via de regra, do tesouro real da Dinastia Odryses. Um aspecto típico do modo como funcionava a sociedade trácia era o contato restrito com outros povos e a percepção de que seus governantes estavam acima de todos os outros. O tesouro real trácio era abastecido com a coleta de taxas, impostos, cobranças e doações, além de espólios de guerra. A mineração do ouro e da prata era extremamente controlada e até a primeira metade do século IV a.C. somente os governantes podiam acumular tesouros em joias e outros objetos de valor, além de moedas. Parte era enterrada junto com os membros da dinastia em necrópolis, mas a maior parte ficava guardada no tesouro real.



  braceletes e apliques para vestimentas
Tesouro de Kralevo
                                                                   
                
A prática dos ricos funerais a partir da segunda metade do século IV a.C. é considerada pelos pesquisadores um fenômeno excepcional pela riqueza das peças e joias encontradas. Os trácios estão entre os primeiros povos europeus a usar a metalurgia e o trabalho artístico em metal. Os artesãos sempre ocuparam um lugar de destaque dentro da sociedade e faziam parte da entourage real desde a antiga Dinastia Odryses. Com o passar dos séculos, esse alto status social e a autoridade que vinha com ele permitiram que ourives e mestres joalheiros pudessem criar mais livremente, juntando aspectos culturais das regiões da Anatólia e do Cáucaso, da Pérsia, do Helenismo e dos fenícios. 


 Coroa,  Museu de História de Vratsa, Bulgária


Vários tesouros foram encontrados (em sua maioria na Bulgária), testemunhas da riqueza e da maestria na arte da joalheria dos trácios: Tesouro de Panagyurishte, Tesouro de Vulchitrum, Tesouro de Rogozen, Tesouro da Pequena Tumba de Shipka, Tesouro de Letnitza, Tesouro de Borovo, Tesouro da necrópolis de Varna, Tesouro de Duvanlii, Tesouro de Mogislanka Mogisla, Tesouro de Loukovit,  Tesouro de Kralevo e Tesouro de Svetitsata.  


    Colar
 Tesouro da Pequena Tumba de Shipka, Bulgária


Conquistados por Felipe II da Macedônia, continuaram sob o poder de seu filho, Alexandre, o Grande. Os trácios foram mais tarde conquistados pelos antigos romanos e, quando o Império Romano ruiu no século V d.C., os trácios caíram sob o jugo das tribos germânicas e o vasto território que um dia foi a Trácia tornou-se um campo de batalha pelos mil anos seguintes.

 

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